Uma lâmina nas sombras - Parte 8
Dia 31 - Thomas é um senhor de meia idade muito simpático que vive do trabalho rural e comercio de seus produtos no mercadinho da cidadela. Todos os dias ele acorda cedo e vai para a lavoura com seus três filhos enquanto sua mulher cuida dos animais no pequeno sitio onde vivem.
O dinheiro mal paga suas despesas com o transporte dos produtos e ração dos animais, porém ele parece não se abalar com isto, está sempre com um sorriso sereno no rosto e uma expressão de contentamento.
Quando o encontrei pela primeira vez, ele se encontrava com seu filho mais velho, Jord, em um bar que fica próximo à entrada da cidade, posição estrategicamente escolhida para receber os forasteiros sedentos por uma boa bebida após horas intermináveis de viagem monótona. Na ocasião, o rapaz havia bebido mais do que devia e acabara encontrando confusão dentro do estabelecimento com um homem duas vezes maior do que ele. Seu pai, desesperado, tentou proteger o filho do punhos do agressor, porém, em instantes, se viu dentro da disputa.
Observei-os sofrer naquela dança frenética, onde os dois homens do campo eram espancados pelo homenzarrão. Por um momento ponderei sobre meu estado físico e mental, por fim resolvi que eles mereciam ser protegidos daquela humilhação. Sentia-me recuperado dos ferimentos causados pelos últimos incidentes e, durante as últimas semanas, estive treinando meu corpo e espirito para o desafio que me aguardava impaciente dentro da mansão no topo da cidadela.
Levantei-me e segui lenta e cuidadosamente na direção do brutamontes - minha capacidade de me esgueirar por lugares com pouca luz estava cada vez melhor - tanto que o ogro não conseguiu sequer reagir quando desferi um golpe em sua cabeça, utilizando um pequeno banco de madeira que apanhei durante o percurso. E lá ele ficou, estirado no chão como um sapo morto, porém ainda respirava, mesmo que com certa dificuldade. Fiz um sinal com a cabeça para os agricultores me seguirem para fora da taverna e eles, receosos, seguiram-me.
Talvez aquela não fora um atitude sábia de minha parte, porém eu já havia traçado um plano e deixar Thomas incapacitado não fazia parte dele. Ele seria a minha passagem de entrada para a mansão, pelo menos era isto que eu imaginara na ocasião. Observei-os durante semanas antes de adentrar na taverna e salva-los do homenzarrão. Duas vezes durante a semana, os dois entravam na mansão com uma carroça de legumes e vegetais para abastecer a copa do duque. Até a segurança de seu trajeto era simplória, o acesso deles era praticamente irrestrito ao local, ainda me pergunto o por que de tanta confiança, mas isto não me impediu de arquitetar uma invasão.
Quando eles me alcançaram do lado de fora, estavam estupefatos com toda aquela situação, e Jord não se conteve:
- Por que você fez aquilo?! - esbravejou o imprudente jovem - Eu poderia ter acabado com ele sozinho!
- Acabado com ele?! Você estava apenas surrando as mãos dele com a face seu débil mental! - Corrigiu o pai.
- Seu pai tem razão, você não tinha a menor chance contra ele e, sinceramente, acredito que nem mesmo eu teria. Mas não estou aqui para avaliar quem teria vencido ou perdido a briga, necessito da atenção de vocês para uma conversa que envolve dinheiro - Com apenas uma frase, consegui estabilizar os ânimos dos dois.
- Eu agradeço de todo coração meu senhor, mas como nós, simples homens de bem, poderemos lhe ajudar, ainda mais em algo que possa envolver pagamento? - disse Thomas, após remover seu chapéu de couro da cabeça e segura-lo nas mãos, com uma expressão de gratidão - O senhor estaria interessado em nossos produtos? - concluiu o inocente senhor.
Não pude me conter, sorri levemente ao perceber sua ingenuidade. Ele seria perfeito para o trabalho. Enquanto nos afastávamos da taverna, perguntei-lhe sobre sua relação como as pessoas que trabalham na mansão, ele me revelou que sua irmã mais nova trabalha na cozinha do duque, por isto ele fora escolhido para suprir os alimentos dos nobres. Durante a conversa, a palavra "envenenamento" não saia de meus pensamentos. Indaguei-lhe sobre a possibilidade de me ajudar a entrar no local, sob a promessa de uma boa quantidade de dinheiro, mesmo não possuindo sequer uma moeda em meus bolsos no momento.
Ele me fitou, com visível receio de perguntar o por que, mas apenas disse:
- Você não está procurando problemas, não é?
Olhei para os dois e respondi firmemente, porém sem me exaltar:
- Estou procurando justiça.
Thomas hesitou por um instante e, alguns instantes depois, assentiu com a cabeça. No entanto, exigiu pagamento adiantado para a tarefa.
Agora possuo um aliado, pelo menos é o que ele aparenta ser, o único empecilho é o dinheiro. Preciso encontrar uma forma de consegui-lo.
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