Uma lâmina nas sombras - Parte 6
Dia 15 - É
difícil para mim descrever o que senti nesta manhã sombria, talvez
não existam palavras para tal sentimento horrendo. Acordei cedo e,
ainda com dores por toda a extensão do corpo, fui trabalhar. O
trajeto corriqueiro em nada se alterou nestes últimos dias chuvosos,
porém, por um capricho do destino, resolvi seguir em frente por um
atalho nas trilhas que levam à madeireira. Apenas imagino minha
expressão no rosto quando percebi que, naquela trilha lamacenta que
dava acesso à uma estrada de chão, haviam dois guardar, urinando e
contando anedotas como se fossem velhos amigos.
Reconheci
seus uniformes prontamente, aquelas cores ainda me provocam
pesadelos. Tentei me afastar lentamente para não ser detectado,
porém fui descuidado e acabei prendendo minha perna em uma armadilha
para predadores que havia sido deixada na trilha por motivos alheios
ao meu conhecimento. Não pude conter minha voz e acabei proferindo
um misto de praguejamento com urro de dor e ali fiquei, preso,
novamente, como um animal indefeso ante as garras de seu caçador.
Eles aproximaram-se lentamente, com suas lâminas desembainhadas,
fitaram meu desespero inicialmente com insegurança, porém esta
acabou se tornando escárnio para o guarda mais velho e para o mais
jovem, compaixão.
Foi
então que os homens fizeram seu primeiro movimento, ignorando os
avisos do velho guarda, o jovem se aproximou:
-
Estava à nos espionar, cidadão? - disse ele.
Com
movimentos da cabeça, neguei veementemente seu questionamento, pois
não conseguia falar devido a tremenda dor em minha perna direita.
Ele cruzou seu olhar com o meu e houve um entendimento, ele sabia
que, por mais inusitada que fosse a situação, eu não estava
perseguindo os homens da lei. Fez um sinal com as mãos para o outro
guarda, que se aproximou rapidamente:
-Precisamos
libertar este homem, - disse o jovem - alias, minha intuição diz
que você mora nas redondezas, estou correto? - indagou o guarda
para mim, que assenti com a cabeça.
O
outro, relutante, ajudou-o à soltar minha perna da armadilha cruel.
Levantei com dificuldade, apoiado nos dois guardas, que começaram a
seguir em frente na trilha, possivelmente voltando ao seu local de
repouso.
Após
alguns minutos sendo carregado, chegamos até uma cabana nas matas,
feita de madeiras grossas e um telhado de barro, artigo de luxo
nestas redondezas. Um homem gordo aguardava em frente a pequena
escada que dava acesso ao refugio. Olhou, confuso, para os dois que,
rapidamente, se entreolharam com visível aflição.
-
Quem é este caipira? - indagou o corpulento senhor - Por que o
trouxeram até aqui?! O duque não vai gostar nada disso! -
finalizou.
Com
dificuldades e alguns surtos de gagueira, eles explicaram ao homem,
que parecia ser seu superior hierárquico, tudo o que havia
acontecido na mata. Foi então que o robusto guarda olhou com
desapontamento para os dois e, para mim, com um certo grau de
desprezo e entrou na cabana.
Quando
ele voltou, pude sentir meu coração parar de bater e minhas veias
congelarem sob minha pele. Ele não voltara sozinho, trouxera consigo
um outro homem gordo, com uma roupa de caçador, porém com uma certa
pompa, devia ser o tal duque à quem o guarda havia se referido. Com
os dois, vieram mais três, um rapaz de olhos claros e cabelos
loiros, com um traje de caça visivelmente mais gasto do que o do tal
"duque". Em sua direita uma moça, com vinte e tantos anos,
cabelos e olhos castanhos e uma pequena mancha no lado direito da
face, uma mancha da qual eu nunca poderia me esquecer. A terceira
pessoa eu conhecia bem, fora minha companheira durante anos, conheço
cada detalhe de seu corpo, alias, conheci, porém ela estava bem
tratada, coberta de ouro e radiante, diferentemente da vida simples
que levávamos antes de me capturarem. Neste momento percebi que,
minha mulher e filhas agora estavam sob o amparo do mesmo homem que
me separou das duas, o ex-conselheiro do imperador que me contratou
para assassinar seu soberano e me entregou às autoridades, o homem
que arruinou tudo que eu lutei para conquistar durante uma vida.
Olhei-a
nos olhos, mas ela não me reconheceu, minha barba e os anos de
cadeia devem ter sido o motivo, apenas proferiu algo aos ouvidos do
duque que, quase instantaneamente, murmurou algo para o jovem que os
acompanhava. O jovem era altivo, com toda certeza um nobre, se
aproximou de nós e fez um sinal para que seus cães de caça me
libertassem e assim os guardas fizeram. Cai de joelhos no chão
apoiando-me em minhas mãos. Ele se abaixou e, com uma frieza
sepulcral, disse:
-
Não há motivos para indagar sobre sua presença em minhas terras,
já tirei minhas conclusões, mas diga-me, como soube onde eu morava?
- olhei-o nos olhos com ódio, não o conhecia, minha esposa estava
com outro homem em minha frente e provavelmente este jovem
inconsequente era meu genro.
Nada
respondi, então ele se levantou, fez um sinal para os guardas, que
começaram à me arrastar, aos berros, do local. Olhei mais uma vez
para as pessoas na varanda da cabana, desejando que todos estivessem
mortos por terem me humilhado na frente de minha filha, que agora era
uma mulher feita. E foi ela, aquela que eu ajudei a trazer para este
mundo, que se aproximou do jovem e disse algo para ele, algo que eu
não pude escutar.
Então
o rapaz gritou:
-
Esperem! Minha noiva me fez perceber o erro que cometi. Não posso
deixar vocês apenas torturarem-no e deixá-lo a própria sorte, ele
sabe onde estamos, acredito que ele seja um espião do império. -
disse ele enquanto se aproximava de nós com minha filha ao seu lado
- Como disse um sábio homem certa vez, se você tem o inimigo em sua
posse, elimine-o, antes que ele faça isto com você. - Zombou ele, o
que fez a moça ao seu lado soltar um pequeno riso. Meus entranhas se
reviraram naquele momento. - Esta foi realmente uma ótima ideia meu
amor, obrigado. - disse ele à ela, que exalou orgulho de si mesma -
E então homem do mato, como deseja morrer? - indagou para mim
enquanto o escárnio começava a se espalhar pelo local, onde os
outros antes aterrorizados, agora se deleitavam com minha desgraça,
- Eu
nunca vi uma decapitação antes Marco - disse ela ao noivo, que
sorriu.
-
Hoje é o seu dia de sorte camponês, você irá satisfazer um desejo
de minha amada! - Fez um sinal para os guardas acompanharem seu
trajeto, levando-me para a morte.
O
sol estava no centro do céu, quando eu vi o tronco improvisado para
servir de apoio enquanto separariam minha cabeça do corpo. Fitei os
arredores em busca de compaixão, mas a única coisa que recebi foram
olhares de desprezo, até de minha amada.
Naquele
momento, ponderei, o velho senhor que tem me ajudado após a fuga da
prisão deve saber da existência de minha outrora esposa e sua
condição atual e por isto não deixou que eu fosse correndo em
busca de seu amparo, até porque eu não iria encontrá-lo.
Então
eles vieram, o guarda gordo carregando um grande machado e um saco de
estopa nas mãos. Quando ele tentou revestir minha cabeça com este
último, a moça gritou: “Não o cubra, eu quero ver!”. O guarda
olhou para o tal Marco e este assentiu para que ele obedecesse a
ordem da garota, e assim ele fez.
O
desgosto percorreu minha mente e meu coração, era isto que eu iria
receber após duas décadas de clausura sonhando em voltar para meu
lar todas as noites?
Ajoelharam-me
na lateral do tronco com a cabeça apoiada na madeira. olhei para
eles, porcos imundos. Desejei do fundo do coração que todos fossem
queimados no mais profundo e profano dos infernos.
A
lâmina subiu, vi seu brilho ao tocas os raios do sol e soube que
minha hora havia chegado. Mas meu instinto de sobrevivência foi mais
forte, quando o machado desceu fazendo um zumbido no ar, não
encontrou a carne desejada, muito menos os ossos que fora feito para
destruir, apenas madeira. Saltei como um felino para os lado e, mesmo
com a perna em frangalhos, pude ficar de pé o suficiente para
acessar o galho que estava em meu bolso e perfurar o pescoço do
grande guarda e então, ele caiu gerando uma poça de sangue no solo.
Já
em pé com a energia da batalha percorrendo meu ser, alimentada por
meu ódio, vi os dois guardas que me trouxeram correndo em minha
direção empunhando suas respectivas espadas. Não tive dificuldade
nenhuma para desarmar o velho guarda e abrir sua barriga com a
lâmina. Quanto ao outro, apenas desviei de suas investidas e acabei
por deixá-lo inconsciente com uma pancada do cabo da espada em sua
cabeça.
Quando
procurei minhas outras vítimas, eles não estavam mais lá, já
haviam se apossado de sua carroça e debandado do local com grande
velocidade, deixando para trás um rastro de poeira.
Voltei
para a estalagem onde vivo e contei para meu acompanhante de viagem o
que houvera acontecido e este, calado como sempre, apenas proferiu
uma frase:
-
Sua hora chegou, fique pronto, partiremos ao anoitecer. - após
concluir, se retirou.
Escrevo
este relato novamente de um acampamento na floresta de pinheiros,
enquanto transito de uma vila para outra. Meu futuro agora é
incerto, não sei o que devo fazer e não tenho nenhum motivo para
querer continuar vivendo, à não ser vingança, é claro. Receoso,
olhei para as sombras e perguntei em alto e bom som:
- É
para isto que me libertaram?! Para me vingar daqueles que destruíram
minha vida e me humilharam?!
E
das sombras ela respondeu:
-
Sim.
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