Uma lâmina nas sombras - Parte 7

Dia 14 - Meus ferimentos foram curados em uma velocidade impressionante. O velho senhor, que ainda continua à me acompanhar, sempre em silencio, utilizou algumas ervas e emplastes para aplacar minhas dores. Porém, não existe nenhuma erva medicinal neste mundo que possa fazer a dor que sinto em minha alma sumir por completo.
    A cena de minha própria filha escolhendo como eu deveria morrer destruiu minhas esperanças de voltar para casa e continuar uma vida decente. Teria eu dado vida à um monstro? Que tipo de experiências ela teve para se tornar algo tão desprezível?
    Não tenho como ter certeza sobre a infância dela, mas sua mãe, o amor de minha vida, sequer me reconheceu no momento, e caso isto tenha acontecido, talvez ela seja a responsável por tal educação hedionda.

    A escuridão ainda fala comigo, suspirando desejos de vingança e conspirações contra minha própria família. Na última noite, a dama das sombras apareceu novamente, sentada em um tronco não muito longe de onde eu me encontrava deitado no acampamento em meios as matas. Quando percebi sua presença, não me exaltei, apenas me levantei de meu local de descanso e a olhei diretamente nos olhos. Isto provavelmente à deixou inquieta, pois, por um instante, me fitou com uma nítida expressão incerteza, demonstrando pela primeira vez o rosto de minha benfeitora.
    Ela era bela, estonteantemente bela, com olhos castanhos claros, cor de âmbar, lábios finos e rosados e um nariz que completava um rosto languido e delicado. O único defeito em sua face, se é que posso chamar essa característica desta forma, era uma cicatriz pequena em seu lábio inferior, que percorria seu queixo até uma distancia que não pude distinguir.
- Não está surpreso como das últimas vezes meu amigo? - disse ela.
- Nada neste mundo me surpreende mais senhorita, já vi o suficiente - respondi.
- É mesmo?! - gargalhou, sem acordar o idoso que dormia muito próximo à ela - Creio que esteja retomando seus velhos hábitos mais rápido do que eu pude prever, - disse ela com um certo tom de desdem - mas não vim até este lugar ermo apenas para verificar seu andamento neste mundo maldito, serei breve e irei diretamente ao ponto, como pretendes eliminar o duque e sua família? - indagou.
    Ela esteve me acompanhando todo o tempo, não me salvou das garras dos guardas, porém ainda estou vivo. Teria ela apostado em minha reação? Seria aquilo apenas um teste para averiguar se eu estava pronto para a tarefa que me fora designada?
- Não tenho um plano especifico em mente, - respondi cautelosamente - primeiramente irei coletar informações sobre seu paradeiro e seus hábitos, após isto desenvolverei uma estratégia adequada para acabar com a vida miserável destes malditos - concluí ainda incerto sobre como proceder em relação à minha antiga família.
- Ela não lhe pertencem mais, assassino, conforme-se, recomponha o equilíbrio entre seu corpo e mente e recupere sua honra. - disse ela, severa, fitando-me nos olhos penetrantemente. Assenti, sem dizer absolutamente nada.
    
    Durante a manhã de hoje, nos aproximamos de uma pequena cidade em um vale próximo às matas, e lá eu iniciei minha busca pelas respostas necessárias. Conversei com os habitantes do local que, impressionantemente, eram muito mais receptivos do que os da vila em que estive à alguns dias.
    Contara-me sobre um homem que ali se estabeleceu com duque à alguns anos, trazendo consigo uma dama e uma jovem que possuíam as mesmas características que procuro. Disseram também, sobre uma família nobre da cidade que, além de famosa por seus atos de crueldade, pretendia se unir à família do duque com o casamento de seus filhos. Descobri também sobre uma mansão ao sul da cidade, muito bem guardada por soldados de elite para proteção do duque.

    Tenho algumas informações, pretendo monitorar o fluxo da mansão e, em breve, executar meu plano. Apesar de tudo, continuo à me perguntar, o que farei com aquelas à quem amei, e quem sabe, ainda amo? Para designar seu destino, preciso saber mais para por um fim neste pesadelo infernal.

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