Uma lâmina nas sombras - Parte 1
Dia 1 – Após grande esforço, consegui convencer o Bulmir à me ceder uma pena, um pouco de tinta e papel para descrever meus dias neste lugar maldito. À muito parei de contar os dias desde que cheguei aqui, porém calculo que já se passaram mais de quinze anos. Pergunto à mim mesmo, "Por que devo escrever sobre minha vida se tenho certeza de que nunca sairei desta prisão, e provavelmente ninguém terá acesso à minhas memórias?". Uma voz em minha mente continua me instigando à acreditar que talvez, apenas talvez, meus últimos dias podem estar próximos e eu irei enfrenta-los longe daqui.
A rotina na cela é simples, uma pasta com gosto estranho é jogada em um prato por baixo da porta para servir de almoço, a tarde me acorrentam para levar os baldes com a sujeira e a noite a mesma nojeira é servida como janta. Como eu disse, é uma rotina. Uma vez por semana dois guardas descem, acorrentam meus pés, minhas mãos, e o pior de tudo, colocam uma coleira de perro em meu pescoço presa a uma vara para que possam me conduzir no banho de sol, privilégio conquistado a pouquíssimo tempo. Enquanto passeio pela muralha, contemplo o penhasco e as ondas sendo arremessadas com força contra a parede de rochas lá embaixo, enquanto os guardas reclamam da função, me chamam de “besta” entre outras injurias. Creio que alguns deles temam a minha presença, porém nunca pude confirmar ou descobrir a razão para tal.
Muito raramente, os outros guardas voltam para suas casas nas vilas próximas, pelo menos é o que o Bulmir alega ser o motivo da falta de guardas em certos períodos. Vez e outra, o mesmo traz consigo um tabuleiro de xadrez para jogarmos, o que diga-se de passagem, é o meu ponto alto da semana, ou do mês, não sei ao certo. Enquanto fingimos saber como usar as peças, ele me conta historias sobre sua infância, sobre como é ser o filho gordo em uma família de heróis, enquanto eu tenho pouco a dizer, apesar de ter uma trajetória semelhante, mesmo não sendo robusto como ele.
Certa vez ele me indagou sobre família, se eu já tivera esposa e filhos, porém preferi evitar este assunto, mesmo após tanto tempo, a magoa ainda existe.
- Entendo se não quiser compartilhar, – disse ele – mas você deve ter algo que o mantêm vivo neste, inferno, eu já teria desistido a muito tempo.
Expliquei-lhe que sim, eu tinha meus motivos, mas eles estavam além de nossa “amizade”.
Desconcertei o rapaz com a resposta, percebi que ele raalmente me via como um companheiro, um amigo no meio desta loucura toda. Talvez tenha ficado evidente que ele se compadecia de minha situação quando lhe contei a razão de eu estar aprisionado, ou pelo menos aquilo que eu acredito ter acontecido.
Devo comentar? Declarar que realmente sou culpado de tal crime? Não, vocês não vão tirar isto de mim, não tão cedo.
Onde eu estava mesmo? Xadrez e histórias, certo. Ele é um rapaz inteligente, sabe conter as palavras e, de certa forma, me respeita. Talvez ele seja o único, nem mesmo eu me dou ao trabalho.
Espero que este registro dure, ou sirva para alguma coisa, nem que seja para lerem durante meu enterro ou cremação, sinceramente não sei como eles se livram dos mortos por aqui.
Irei dormir agora, enquanto a lua está iluminando a cela, na esperança de sobreviver mais uma noite.
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