Uma lâmina nas sombras - Parte 2

Dia 2 – Esta ultima noite foi complicada, relembrar certas coisas me dá calafrios e uma angustia que eu não consigo controlar, mas neste caso especial, existe outro fator. Receio que eu não seja o único ser que habita esta cela fétida.
Durante a noite, entre um despertar e outro durante a madrugada, pude vislumbrar aquilo que se assemelhava a uma sombra próximo ao meu banco e a mesinha no canto da parede. Estava olhando para mim, seus olhos escondidos na penumbra abaixo de um capuz, que eu julgo ser de um purpura muito escuro ou realmente negro. Ficou ali, observando durante algum tempo, com toda certeza percebeu que eu estava consciente, mas pareceu não se importar. Quando meus olhos fraquejaram e perderam a batalha contra o sono, ela se foi.
Durante a manhã tentei me convencer de aquilo fora um pesadelo ou uma alucinação, o que não seria surpresa nenhuma para mim, já que vivo à muito tempo neste local insano. A tarde, durante uma das costumeiras conversas com Bulmir, comentei sobre o acontecido, o rapaz empalideceu e disse:
- Era um “ele” ou “ela”? - Disse ele.
- Não posso afirmar meu caro, mas acredito que possuía uma silhueta feminina. - Ponderei.
- Seu tempo de clausura está lhe fazendo mal! - Riu Bulmir com discrição. Não levei a mal o bom humor do jovem guarda, pois, apesar de tudo, ele pode ter razão.
Neste momento, irei descansar, espero não receber nenhuma visita esta noite. A luz da lua ainda me faz companhia.
Dia 3 – Aconteceu novamente. Dormi profundamente durante horas, mas no meio da madrugada, quando acordei para urinar, lá estava ela, visivelmente uma mulher, sentada em meu banco, agora do outro lado da cela, usando uma capa purpura de um tom extremamente escuro, se não fosse pela luz da lua eu sequer poderia notar. Fitou-me durante alguns instantes, enquanto eu estava em pé, sem ação, esperando que algo acontecesse para me tirar de tal sonho bizarro.
- Uma bela noite para se contemplar, não acha? - disse ela enquanto, acredito eu, me olhava nos olhos por baixo das sombras do capuz.
Nada respondi, estava paralisado, havia algo nela que despertava em mim um medo que nem mesmo eu sabia da existência. Fiquei ali, calado, provavelmente de olhos arregalados encostado contra a parede enquanto ela sorria levemente se deleitando com meu pesar.
E então ela se levantou, foi até a mesinha ao meu lado e viu minhas anotações sobre a mesma. Olhou para mim novamente como se buscasse aprovação para poder ler sobre meus segredos. Não movi um músculo, estava apavorado demais para consentir ou impedi-la. Então ela analisou o texto de uma noite anterior, sorriu com o canto da boca, provavelmente durante a passagem em que é citada com descrença por mim.
Então ele se moveu novamente, veio até a minha frente, onde pude sentir seu leve perfume, e disse:
- Este local não é para você, tens a alma de um poeta e o coração de um dragão enfurecido. - afirmou ela – Certos tipos, como seu, não podem ser aprisionados e muito menos seus ideais suprimidos. - proferiu ela enquanto eu, agora não tão apavorado quanto antes, relaxava as mãos antes rígidas em contato com a parede.
- Quem é você, – indaguei – o que quer comigo? Como entrou em minha cela com tanta facilidade?
- Você tem muitas perguntas e, até onde sei, muitas respostas também. - disse ela – Volte a dormir, esta será sua última noite aqui, assassino. - aquela palavra passou por meus ouvidos como uma lamina afiada, a tempos ninguém me chamava desta forma – Voltarei amanha, esteja preparado.
E então ela sumiu nas sombras da cela, meu coração batia aceleradamente. Ainda existe a possibilidade de liberdade para mim?! Creio que esta noite eu irei obter a resposta.

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